quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Autor em destaque - António Torrado

Continuamos hoje a publicação da História do Dia, de António Torrado.


HISTÓRIA DO DIA - 21 DE JANEIRO

Pancrácia 

Era uma vez uma dama, que tinha uma criada meia-zaranza e papa-moscas, que não fazia nada com jeito. Chamava-se a criada Pancrácia.
Um dia, a dama teve de ausentar-se de casa por uns tempos e de deixar tudo aos cuidados da Pancrácia. Antes de sair, recomendou-lhe:
- Enquanto eu estiver fora, vê bem como cuidas dos meus haveres. a qualquer um, que te apareça, diz sempre "Não". Está bem?
- Não - respondeu a criada, muito obediente.
A dama percebeu que o recado estava aprendido e saiu mais descansada.
Dias depois, bateram à porta de casa. Era ou fazia de conta que era um mendigo.
- Senhora, dê-me resguardo, que está muito frio cá fora...
- Não - disse a criada.
- E uma sopinha quente, para comer aqui, mesmo à soleira?
- Não - disse a criada.
- Nem uma esmolinha de uns tostões poucos?
- Não - disse a criada.
Aqui o mendigo começou a perceber que aquele "não" era de encomenda. Por isso, resolveu virar as perguntas do avesso:
- Então a senhora consente que eu enregele de frio, cá fora?
- Não.
- Então a senhora recusa-se a dar-me de jantar?
- Não.
- Então a senhora importa-se que eu dê uma volta pela casa?
- Não.
E assim o falso mendigo foi conseguindo os seus intentos.
- Não faz mal que eu meta para o saco algumas lembranças desta minha visita, pois não?
- Não.
O larápio levou o que quis e a Pancrácia ajudou.
Quando a dama regressou de viagem e viu a casa roubada, desesperou-se:
- Ó mulher, tu não te importaste que me levassem tudo o que levaram?
- Não - respondeu, muito bem ensinada, a Pancrácia.



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